Terra

 
Aceita a minha homenagem, 
Terra, 
enquanto faço a minha última venia ao dia.
Ajoelhado aos pés do altar do poente
 
Tu és poderosa, 
e apenas reconhecível pelos poderosos;
Tu equilibras o encanto e a severidade,
Misturando o masculino com o feminino,
Trazendo à vida humana o insuportável conflito.
 
A taça que a tua mão direita enche com néctar
É esmagada pela tua mão esquerda;
O teu pátio ressoa com o teu riso trocista.
Tornas o heroísmo difícil de alcançar;
Toda a excelência custosa
Não tens misericórdia com aqueles 
que merecem misericórdia.
Um incessante combate oculta-se a teus pés:
As tuas colheitas e frutos 
são coroas de vitória,ganhas na batalha.
Terra e mar são os teus cruéis campos de batalha 
A vida proclama o seu triunfo no rosto da morte.
A civilização finda os seus alicerces na tua crueldade:
A ruína é a condenação exata para qualquer falta.
 
No primeiro capitulo da tua história 
os Demônios eram supremos, 
Rudes,bárbaros,brutais
Aos seus dedos toscos e grossos faltava arte;
Com clavas e malhos nas mãos 
armaram motins do mar e nas montanhas.
O seu fogo e o seu fumo 
agitaram violentamente o céu até ao pesadelo;
Eles controlaram o mundo inerte;
Eles cegaram o ódio da Vida.
 
Os deuses vieram a seguir; 
com os seus feitiços e subjugaram os Demônios .
Despedaçada foi a insolência da matéria
A Terra-Mãe estendeu no seu manto verde:
Nos picos do Este estava a Aurora;
Nas costas Oeste caiu A Noite
Derramando a Paz no seu cálice
 
Os Demônios foram humilhados
Mas a barbárie primordial 
manteve as suas garras na tua história.
De repente podia invadir a ordem com a anarquia,
Dos negros esconderijos do teu ser
Pode surgir como uma serpente.
A sua loucura está no seu sangue
Os feitiços dos deuses ressoam no céu 
e no ar e na floresta,
Cantando solenemente dia e noite;alto e baixo;
Mas das regiões sob a tua superfície
Às vezes os Demônios semidomesticados 
levantam os seus capelos,
Eles ferem-te profundamente e às tuas criaturas
Arruinando a tua própria criação.
 
No teu assento sobre o bem e o mal,
À tua vasta e terrível beleza,
Ofereço hoje a minha homenagem de vida ferida.
Toco o teu enorme 
e sepultado depósito da vida e da morte,
Sinto-o através do meu corpo 
e do meu pensamento.
Os cadáveres de inúmeras gerações de homens 
jazem amontoados no teu pó:
Eu também acrescentarei alguns punhados, 
à medida da final das minhas dores e alegrias,
Acrescentando a esse enorme absorvente, 
a essa forma absorvente, 
a essa fama absorvente,
A esse silencioso monte de pó.
 
Terra, 
presa à pedra ou voando entre as nuvens;
Absorta na medição silenciosa da cordilheira
Ou ruidosamente como o bramido 
de insones ondas do mar;
És a beleza e a fertilidade, 
o terror e a fome.
Por um lado acres de searas, 
inclinando-se com a maturação,
Limpas do orvalho de cada manhã 
por delicados raios de sol –
Ao poente também, 
oferecendo na sua ondulante verdura a Alegria, 
a Alegria;
Por outro lado, 
nos desertos insalubres, 
secos,estéreis,
A dança de espetros 
entre ossos de animais espalhados.
 
Contemplai as tuas tempestades Baisakh 
desceras velozmente como falcões negros
Rasgando o horizonte com bicos de luz relampejante
Com chicotada da cauda nas arvores
Até estas caírem desesperadas no chão;
Telhados de colmo soltam-se
Fugindo do vento como condenados das suas correntes.
 
Mas em Phalgun vi a quente brisa do Sul,
Propagar todas as rapsódias 
e solilóquios do amor
No seu perfume de flor e manga;
Vi o vinho espumante do Céu 
transbordar da taça da lua;
Ouvi sebes submeterem-se bruscamente 
à agitação do vento
E estalarem em ofegantes murmúrios.
Tu és gentil e feroz, 
antiga e renovada;
Emergiste do fogo sacrificial da criação 
original há muito, 
muito tempo.
A tua peregrinação cíclica 
está preparada com vestígios 
sem sentido da história;
Abandonando as tuas criações 
sem remorsos, 
juntas umas sobre as outras,
Esquecidas.
 
Guardião da Vida, 
tu alimentas-nos
Em pequenas gaiolas de tempo fragmentado,
Fronteiras de todos os nosso jogos, 
limites reconhecidos.
 
Hoje,estou à tua frente sem ilusões:
Não te peço a imortalidade à tua porta
Para os muitos dias e noites que passei 
a tecer as tuas grinaldas.
Mas se eu tivesse dado real valor
Ao teu pequeno assento 
um minúsculo segmento de uma das Eras
Que se abrem e fecham como clarões 
nos milhões de anos
Da tua órbita solar ;
Se eu tivesse ganho 
nos tribunais da vida algum sucesso,
Então marcaria a minha fronte 
com um sinal feito da tua argila,
Para ser apagado a tempo pela noite
Na qual todos os sinais desaparecem 
no desconhecido final.
 
Ó longínqua,impiedosa Terra,
Antes de eu ser completamente esquecido
Deixa-me colocar a minha homenagem aos teus pés. 
 
 
Rabindranath Tagore
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